15.3.18

Caso de família

   Eu estava com minha família na fazenda. Havia uma casa grande onde ficaram meus pais e meus avós. Resolvi dormir na cabana que ficava há uns 10 metros de distância. Minha prima queria ficar comigo mas não permitiram e ela ficou na casa. A noite foi tranquila como todas as outras em que estive lá. Na manhã seguinte, ela foi me ver e estávamos conversando quando de repente ela olha para o chão e vê um corpo. Um homem aparentemente morto. Estava imóvel, com os olhos fechados e parecia estar sangrando.  Gritamos e meu pai apareceu com um facão. De repente o corpo tinha sumido. Meu pai pede para que esperemos na casa com os outros. Estávamos indo quando vi o cara que estava morto correr para atacá-lo, então achei outro facão e fui para cima dele mas já era tarde, ele já tinha acertado meu pai. Então acertei o assassino porque era a única coisa que passou pela minha cabeça ao ver que ele tinha matado quem eu mais amava. Ele caiu no cômodo no qual era para estar quando o vimos. Olhei para mim suja de sangue e comecei a chorar. Só então minha ficha caiu. Todos os outros familiares estavam na porta observando.

   Assim se encerra o depoimento que precisou ser repetido várias vezes. Graças a ele fui liberada como a moça que irá passar seus dias relutante com a vida porque não pôde salvar o pai e ainda assistiu ele morrer. Mas ainda sinto meus braços doerem por ter feito um esforço maior que meu corpo frágil supostamente suporta. Todas as noites sonho com a verdade. Vou poder escondê-la dos outros para sempre mas de mim, não tem como.
Jamais poderei esquecer a dor que me fez matar aqueles idiotas. O que realmente aconteceu foi que quis dormir na cabana para me encontrar com Henrique. Ele era casado e por isso ninguém sabia que tínhamos um relacionamento. Meu pai descobriu 2 dias antes de irmos para a fazenda e estava ameaçando nos expor se eu não deixasse de vê-lo. Pedi para que ele me desse a chance de conversar com ele e terminar tudo enquanto eu estivesse naquela cabana. Bem, eu terminei. Nunca mais poderemos nos ver novamente. Mas não o matei por isso. Enquanto conversávamos ele me disse que já estava na hora de dar um fim em tudo aquilo porque sua esposa suspeitava que ele tivesse um caso e ele não queria perdê-la. No entanto não sabia como me dizer e, já que agora era um problema também para mim, esse era o momento ideal. Eu disse a ele que tudo bem, que era o melhor a se fazer mesmo. E pedi que ele dormisse ali e fosse embora antes que minha família acordasse. Ele quis dormir no chão e eu quase o agradeci por isso. No meio da madrugada, enquanto apreciava seu rosto que parecia ter tanta paz, fiz o favor de mantê-lo calmo eternamente. Com um facão que eu segurei com força com as 2 mãos golpeei seu peito. Ele acordou engasgado pelo sangue, tentou puxar o ar por menos de 1 minuto e logo morreu. Então fui dormir.
   De manhã quando minha prima foi me acordar ela viu o corpo e quando percebi que ela ia gritar fiz o mesmo. Sabia que meu pai seria o primeiro a aparecer porque ele sempre acordava antes de todo mundo. Então disse que o corpo tinha sumido e minha prima não olhou para constatar, apenas correu enquanto meu pai me mandava correr também. Mas eu peguei o facão que havia jogado ao lado da cabana e corri ao seu encontro para golpeá-lo. Ele estava em choque e foi fácil. Ele não gritou, só vi seus olhos arregalados me dizerem sem voz que aquilo era inacreditável. Bem, eu também não pude acreditar quando a pessoa que dizia me amar mais que tudo ameaçou me expor. Eu já tinha me livrado da causa mas sentia que ele não podia viver, ele iria me dedurar sobre o que eu tinha feito com Henrique e todos saberiam que eu o matei porque fui rejeitada. Eu não podia permitir. Antes que alguém aparecesse, gritei para demonstrar que meu pai tinha sido atingido e enfiei o facão no mesmo lugar que havia golpeado Henrique quando este se foi. Quando olhei para a porta e vi todos me encarando eu tive que parecer que sofria com a situação então dramaticamente olhei para mim e todo aquele sangue e comecei a chorar. Minha mãe me abraçou e olhou para o outro corpo que estava tão próximo mas que da porta era difícil enxergar porque a cama cobria a visão. Todos começaram a chorar quando perceberam que meu pai era esse corpo. Fomos para a casa principal e só saímos de lá quando a polícia chegou, fez um monte de perguntas e nos liberou. Após isso passei meses indo à delegacia para responder alguma dúvida ou brecha que havia ficado. Cheguei a ter audiências com um juíz mas, esse meu depoimento trágico juntamente com minhas lágrimas e o fato de ter perdido um pai que jamais veria minha formatura que era dali a 3 meses, o fizeram me absolver. Porém não estou absolvida de meus sonhos. Alguma coisa fiz de errado para eles não saírem de minha mente mas ainda não sei o quê.

6.3.18

Escuridão

   Quando a rotina impera tudo mostra ser seguro. Temos quase certeza de que nada vai dar errado. Nem parece que com tanta austeridade uma coisa simples poderia tirar tudo do lugar. A falta de energia, por exemplo, pode transformar vidas em caos.
   Era segunda-feira e os que tinham trabalho estavam nele e, os que por algum motivo estavam em casa, gostariam de ter a oportunidade de estar fora. A energia acabou às 18:33hs. A esperança forte da maioria os fizeram achar que voltaria logo mas, os mais pessimistas já sabiam que iam passar boa parte da noite na escuridão. E, em meio a tantas pessoas comuns que reclamavam a luz de volta, existia alguém que se sentia confortável quando ninguém podia vê-lo. Ezequiel era seu nome. Essa pessoa que também tinha uma rotina quase idêntica a de todos, nesse dia resolveu que não iria trabalhar. O que ele fazia era lidar com marketing e propaganda e era muito desgastante exagerar nas qualidades e esconder os defeitos o tempo todo. Porém, o fato de sua vida também poder ser descrita dessa maneira fazia com que o trabalho fosse mais acolhedor. Hoje ele queria dar voz a seu outro eu. Não sabemos se deveríamos dar valor a tudo que se passa em nossas mentes mas esse cara iria descobrir.
   Ezequiel estava no sofá lendo quando a luz se foi. Não houve surpresa; sua luz interior já o havia deixado há muito tempo. O sol que apesar de já ter começado a se pôr emanava alguma claridade e ainda conseguia emitir a paz necessária para se dirigir a algum cômodo e procurar as velas ou lanternas que substituiriam as lâmpadas. Era como o oxigênio que por mais que em alguns momentos parecesse nos sufocar, emitia a ilusão de que algo viria a seguir para substituí-lo e continuarmos respirando. Ezequiel leu pelo tempo que 2 velas gastam para queimar. Enquanto o personagem estrangulava mulheres sua mente o lembrava que em seu íntimo essas mesmas atitudes habitavam seus sonhos. Foi então que lhe ocorreu que sempre há alguém que é obrigado a passar pela rua sozinho independente das circunstâncias. Pessoas voltavam do trabalho em horários variados e tinha também quem estudava à noite. Foi assim que ele percebeu que seus sonhos poderiam se tornar realidade no presente. Dessa vez, Ezequiel não gastou horas com entretenimento barato para se desfazer do que aparentava ser tão anormal para quem o rodeava. Pela primeira vez a vontade de manter as aparências para si mesmo foi vencida pelo desejo que ardia em sua alma. Ezequiel se apressou em retirar as cordas que sustentavam uma rede na área e o lençol escuro de sua cama. Colocou-os no carro e saiu, quase se esquecendo de fechar o portão tamanha era sua ambição de possuir uma vida além da sua, que não o satisfazia. Ezequiel desligou os faróis e perambulou pelas ruas desertas e escuras que faziam divisa com seu bairro. Enquanto esteve procurando uma vítima ele sentiu como se o dia fosse do caçador, como se fosse o seu dia. Aquela data teria mais ligações consigo que seu próprio aniversário pois essa era uma coisa que a vida o perguntou antes se ele queria fazer. Nunca havia sentido que tinha controle sobre o que acontecia e agora ele sentia que além de poder governar a si ele iria ter poder sobre quem quisesse.
   Após 20 minutos que se passaram devagar mas que Ezequiel soube saborear com calma, sem perder a paciência, ele avistou uma mulher loira de cabelos longos descendo de um ônibus. Ela estava com uma mochila, provavelmente voltava da faculdade ou coisa assim. Ele desligou o veículo há alguns metros antes que ela notasse sua presença, desceu do carro e abriu o porta-malas com cuidado. Quando ela passou por ele estava desesperada para chegar em casa após um dia cansativo e a escuridão que se estendia pelo bairro todo a fazia querer correr. Ezequiel se mantinha atrás do carro, ela olhou para o veículo e não viu ninguém mas resolveu andar mais rápido. Sem fazer barulho, Ezequiel se colocou atrás dela, cobriu sua boca e enquanto ela se debatia jogou-a no porta-malas. Usou uma parte do lençol para colocar dentro de sua boca e de uma forma bagunçada enrolou o restante em sua cabeça onde amarrou o tecido com uma das cordas transformando ele em um capuz. Foi bem difícil já que ele deveria ter amarrado suas mãos primeiro. Infelizmente esse pensamento só veio depois. Ela quase se desvencilhou dele até que finalmente ele conseguiu amarrar suas mãos. Fechou logo o porta-malas e entrou no carro. Ele começou a pensar onde seria melhor dar início à sua diversão e concluiu que voltar para sua casa seria mais inteligente que deixar pessoas verem seu veículo circulando em algum local iluminado. Quando chegou em sua residência não tinha ninguém na rua. Ele entrou sem que fosse visto. Abriu a porta da sala e começou a andar de um lado para o outro sem saber o que fazer primeiro. Então, ao se sentar ele teve a ideia que o melhor era amarrá-la a uma cadeira. Procurou mais uma corda pela casa pra poder amarrar suas pernas. Somente depois de quase 15 minutos ele encontrou. Então respirando euforicamente tirou a mulher do porta-malas. Agora ela não se debatia mais. Estar quase impossibilitada de respirar a fez desmaiar. Ao notar isso, Ezequiel se permitiu um sorriso. Foi fácil amarrá-la à cadeira e ele ainda pôde retirar o capuz improvisado e colocar uma meia ao invés do lençol na boca da moça, depois ele apenas cobriu a boca dela com fita adesiva que não tinha pensado em levar para seu passeio. Agora parecia que tudo estava muito mais claro apesar da luz da vela que acendeu estar se contorcendo como se soubesse o que se sucederia e não quisesse fazer parte daquilo. Ezequiel se sentou no chão em frente à moça e esperou que ela acordasse. Não demorou muito. Ele degustou cada instante como se fosse um vinho caro e assim que seus olhos se abriram parecia que uma nova vida se iniciava. Ele era a borboleta saindo do casulo. E aquela mulher que assim que se deu conta de como estava mostrou o medo através de seus olhos, era seu alimento. Como lagarta ele se alimentava como os outros insetos desse mundo, agora ele queria o sabor doce das flores. Ele se levantou e sentiu o perfume que emanava daquela pele juvenil. Ele se sentiu velho apesar de ter 25 anos pois aquela moça tinha alguns anos a menos e sua falta de experiência com a vida exalava através de seus poros tendo cheiro de rosas. O aroma o intoxicou de vontades. Foi arrebatado pela luxúria. Tocou cada parte do corpo ainda vestido que se retesava em vão. Cada centímetro lhe dava uma sensação diferente. Ele já havia estado com uma quantidade significativa de mulheres e em nenhuma ocasião elas o fizeram ter tamanho prazer. Mesmo que as outras se entregassem por completo e tentassem mostrar todo seu talento vulgar, nenhuma tinha o atrativo do medo. Sentir que você é a única pessoa com direitos sobre aquele ato dispensa preliminares demoradas pois ele já estava excitado ao máximo. Ele queria estrangulá-la, queria sentir o mesmo que o personagem sentira ao tomar vidas para si. No entanto ele queria que aquele momento durasse, que seu prazer fosse mais que um orgasmo que dura poucos segundos. Então com a ajuda de uma tesoura ele tirou toda a roupa da jovem sem precisar desamarrá-la. Ao terminar pegou o celular e começou a tirar fotos. Enquanto o fazia notava o quanto era inútil achar que precisava da atitude de outra pessoa para que ele sentisse prazer. Ele não precisava que ninguém o tocasse, nem ele mesmo. Seus olhos eram seu novo órgão sexual. Bastava olhar para seu trabalho e sentir o coração bater mais forte enquanto o mundo estava mudo. Para acabar com seu momento inspirador e elucidante a vela se apagou. Ezequiel acendeu mais uma que sibilava mais que a outra e, para esclarecer que não resolveria não querer participar, usou a cera que derretia para pingá-la em vários pontos do corpo de sua vítima. A primeira coisa que viu acontecer foi o corpo dela se arrepiar. Parecia impossível sentir mais prazer e isso ocorreu ao saber que mesmo não querendo nosso corpo responde a tudo que o toca. Ele chegou a cogitar a possibilidade dela estar sentindo o mesmo que ele quando ela começou a chorar. Então ao invés de parar, Ezequiel acendeu mais uma vela e com as duas mãos derramou o líquido quente sobre a pele bronzeada que agora estava quase toda branca de cera. O próximo entretenimento que apesar de barato o satisfazia mais que tv ou sair para tomar cerveja, foi retirar os pedaços secos de cera. Ele gastou quase 1 hora para tirar tudo. Não estava com pressa e se deliciava quando sua mão finalmente tocava a pele desnuda que agora estava vermelha. Então Ezequiel se lembrou que ali corria muito sangue e que se apenas a estrangulasse não teria oportunidade de ver sua textura e cor que se diferenciava de pessoa para pessoa. Chegou a pensar em qual sabor teria. Então procurou alguns lençóis velhos e os colocou em volta e embaixo da cadeira. Dobrados eles ofereciam uma camada grossa que impediria que o sangue que ele queria ver manchasse o piso. E, com a mesma tesoura afiada, começou sua sessão de tortura. Ele cortou as orelhas até o nível que a tesoura o permitiu, tentou cortar seus dedos, arrancou suas pálpebras que se recusavam a assistir aquilo, seus mamilos e a ponta do seu nariz. Ele via o sangue escorrer sobre aquele corpo e quase não se conteve de excitação, lambeu o sangue que descia por sua barriga e acabo deixando escapar um gemido que ele esperava que tivesse sido abafado pelas paredes. Então a luz voltou. Não houve surpresa também porque de certa forma sua vida tinha sido iluminada e ele se sentiu bem ao ver com exatidão tudo que estava vendo através das sombras que a vela criava. Com tanta luz em volta, o sangue brilhava e até as lágrimas eram mais transparentes, mais encantadoras. Ezequiel sabia que o momento de sair do encantamento havia chegado. Tirou mais fotos e sem desviar os olhos dos de sua vítima, ele a estrangulou com as mãos. Não era muito forte, era o que os colegas diziam, sempre ouviu que deveria malhar mas, naquele momento sua força era notável. O pescoço da moça logo estava roxo e seus olhos logo perderam o foco, ela agora olhava para dentro de si mesma. Assim como Ezequiel que finalmente enxergou sua alma que não se fazia visível diante do espelho. Agora era preciso se livrar do que ofereceu a ele bons momentos. A vida é assim mesmo, nada que é bom dura muito. Ninguém o havia visto fazendo nada então ele não seria um suspeito. Sua casa parecia o local perfeito para se desfazer do corpo. A madrugada Já os espreitavam há algum tempo e apesar da energia ter voltado, todos já estavam dormindo, exaustos pela espera. Para concluir seu espetáculo de forma teatral e digna, Ezequiel envolveu a moça nos lençóis banhados de sangue e, juntamente com seus pertences nos quais ele não fez questão de mexer, derramou álcool e fez brotar chamas com velas. O cheiro agora não era nada parecido com o de rosas, poderia ser até suspeito. No entanto seus vizinhos estavam sob efeito do sono; aquela escuridão que aceitamos e que nos protege da realidade. Ela também o protegeria.
   Quando o que restou de sua noite foram cinzas, ele tomou um banho e se certificou que não tinha nenhum fio de cabelo no porta-malas e nenhuma gota de sangue na sala. Após isso, voltou para o escuro dos sonhos. Sua escuridão interior estaria a salvo e em algumas horas, quando ele voltasse ao trabalho, todos voltariam a enxergar suas qualidades exageradas que escondiam os defeitos que o fez perder um dia de trabalho como qualquer ser humano comum.

11.10.17

Não posso aceitar que este texto sobre o meu atual estado tenha sido feito de frases organizadas; não dá para aceitar que exista alguma ordem nisso tudo. Ele existe por causa da bagunça evidente que venho cobrindo com um véu transparente. É engraçado o sorriso que exponho de modo tão cínico porém tão parecido com o alheio, então de certa forma ele é verdadeiro. Eu acho mais fácil lembrar a posição de todas as estrelas que colocar todo esse desatino no lugar. Tudo porque eu não queria fazer parte do caos do mundo. Agora eu sou o próprio caos. Diálogos desesperados e apelativos se tornaram a minha motivação principal. As outras eu tento encontrar todas as noites no meu quintal.

10.10.17

Você não pode parar.
Não pode perder o foco.
Em momento algum deve parar pra pensar.
É aí que você lembra de algo bobo e escorrega em algo grande e influenciador.
É aí que você transforma o que era pra ser alguns segundos respirando em 10 minutos quase sufocando.
É aí que você começa a rir com um pensamento triste e não percebe que é de desespero porque você julgava ser feliz e não quer entender que isso não vai voltar a acontecer.
Não ache que sonhos e esperanças irão te salvar.
Não pode se deixar levar por sonhos.
Nenhum é real.
Não é a toa que é uma necessidade acordar.
Os esqueça.
O necessário automaticamente é feito.
O manual é sempre mais seguro.
Se jogar no escuro achando que não vai se machucar é coisa de gente romântica.
E os romances só são reais quando acompanham tragédias.
Você não quer ser esse tipo de tragédia.
Sabe que seu dom é esquecer.
É uma pena que não possa se lembrar nem de você.

28.8.17

A inocência se vai com a verdade. Expulsa pela realidade.
Negócios

   A primeira vez que a vi foi como a posterior e a posterior e a posterior... Ela estava linda e sorria como se tivesse ganhado na loteria. E quem podia dizer que não tinha ganhado com aquela beleza estonteante? Seus cabelos negros e longos contrastavam com a pele clara e o corpo pequeno e delicado. Ela vendia flores e eu sabia que era seu perfume que acompanhava os clientes que saíam satisfeitos. Eu não sei se dizer se havia muitas variedades de espécies mesmo depois de ter passado por ali quase 365 dias seguidos. Eu não via nada mais interessante que ela. Assim se sucedeu nas primeiras semanas. Depois, eu não enxergava nada interessante em lugar algum. Nem naquelas mexas ruivas naturais que tinha na gaveta do quarto. Então, comecei a pagar pessoas para comprar uma flor qualquer e aproveitar para fazer uma pergunta pessoal. Após 11 tentativas e um engraçadinho que aproveitou para fazer perguntas por sua própria conta e sair com ela - e talvez deva incluir aqui sua morte pois não pude suportar a audácia do imbecil - finalmente descobri seu nome: Lilian e seu endereço.
   No período em que ela trabalhava eu ia para sua casa. No primeiro dia descobri que ela morava apenas com uma senhora de idade que ficava sempre muito quieta e mal se mexia. Estava quase entrando na casa pela janela quando a vi se levantar debilmente e seguir para um cômodo que devia ser o banheiro. Então, fui embora e resolvi planejar tudo do lado de fora antes de passar para o lado de dentro. Foram dias intensos e as noites mais ainda pois seus lábios sempre me tocavam em meus sonhos. 1 ano que passou como uma era. Daria tempo para causar uma guerra e foi mais ou menos isso que tanta paixão causou.
   Era um entardecer bonito e com certeza Lilian devia estar achando-o romântico pois sorria sonhadoramente. Eu achei que era o momento certo. Nosso primeiro encontro - formal - seria perfeito. Ela caminhava pela rua que passava atrás da floricultura. Eu já tinha me certificado de que àquela hora estaria deserta. Então coloquei um saco feito de cetim em sua cabeça e enquanto ela se debatia um pouco eu tapava sua boca com uma das mãos para que seus gritos não fossem ouvidos. Abri o porta-malas e peguei a seringa com um sedativo que ali tinha deixado e apliquei em Lilian. Ela adormeceu e eu a acomodei cuidadosamente. Ao sair vi que ninguém passava. Fui direto para sua casa. Mais cedo tinha passado por lá e sedado a idosa. Tomei o cuidado de amordaçá-la e prendê-la no cômodo embaixo da escada que eu havia pensado ser o banheiro mas acabei descobrindo que era onde ela guardava revistas com homens seminus. Deve ter uma mente doente e perversa a pobre idosa. Não vou pecar em deixá-la ali enquanto eu estiver com Lilian.
    Ao chegar, notei que os vizinhos da direita saíam e que os da esquerda ouviam algum show em DVD numa altura absurda. Às vezes a falta de respeito das pessoas é uma benção, devo confessar. Não tinha mais nenhum vizinho perto o bastante para causar problemas então abri o porta-malas e tirei Lilian de lá. Passei pela porta que eu havia deixado destrancada ao passar pela janela dos fundos que agora ao invés daquele vidro horroroso de igreja tinha uma madeira no lugar. Subi a escada com ela em meus braços e imaginava que nossa lua de mel pudesse ser assim, se fosse ali. E falo até do saco em sua cabeça. Afinal era cetim. Então subi e coloquei ela na cama que imaginava que era dela e sentei na cadeira ao lado até que ela acordasse.
   Aquele foi um momento mágico. Exatamente como ver uma lagarta se transformar em borboleta abandonando seu casulo. Ela levou meio segundo para querer descobrir a cabeça então me olhou, eu sorri e ela gritou. Imediatamente a abracei enquanto tapava sua boca. Disse a ela que estava tudo bem, se ela não gritasse nem se debatesse ela teria o melhor cuidado que alguém poderia ter então ela balançou afirmativamente a cabeça e eu a soltei. Ela perguntou por sua avó. Eu disse que ela estava em segurança no andar de baixo. Ela disse que precisava dar remédios a ela e eu disse que já tinha cuidado disso. Ela pareceu surpresa e perguntou por que eu estava fazendo aquilo com ela. Eu disse que ela passava tempo demais cuidando de flores e da felicidade dos outros e que ela merecia o mesmo. Ela disse que tinha namorado e eu disse que sabia que não era verdade. Então ela começou a chorar e eu perguntei se ela queria alguma coisa ao que ela respondeu "minha liberdade". Me magoei um pouco com tais palavras ingratas mas disse a ela que era natural se assustar com coisas que chegam sem avisar. Apliquei outra dose de sedativo com alguma dificuldade porque ela se debateu muito e desci para o andar de baixo para me recuperar.
   Acabei dormindo. Quando acordei corri para o quarto de Lilian. Para minha sorte ela só acordou porque fiz muito barulho ao abrir a porta com força. Ela ameaçou gritar mas eu fui mas rápido e a segurei explicando que eu iria mantê-la sedada 24 horas por dia se ela não colaborasse. Ela foi compreensiva e pudemos conversar. Contei-lhe todos os sonhos que tive com ela, falei das vezes que pedi para alguém comprar flores em meu lugar para saber a seu respeito e contei também que havia guardado todas elas no porão da minha casa para dar a ela de presente mas elas haviam morrido. Ela ouvia tudo em silêncio e mesmo quando eu perguntava "o que você acha?" ou "está me ouvindo?" ela mantinha sua postura de tristeza. Estava começando a achar que sequestrei a pessoa errada. Não via sinal de sua felicidade em nenhuma parte dela, em alguns momentos quase a achava feia. Em 3 dias pude permitir que ela circulasse pela casa e usasse os cômodos de sua preferência. Ela não permitia que eu a alimentasse e estava emagrecendo. Foi melhor assim mas é claro que usei a nobre ideia de colocar madeira em todas as janelas. As portas tinham várias trancas e as chaves foram escondidas por mim. Ela pediu para libertar a avó e assim o fiz mas a velha já não respirava mais e até começava a cheirar mal. Pensei não ser possível ver Lilian mais triste mas me enganei. Ela entrou em desespero e parou até de me olhar. Ela não comia, não tomava banho e não saía da cama que já se encontrava imunda devido sua infantilidade. Eu pedi para que ela ao menos mudasse de quarto e ela não quis então o fiz a força. No dia seguinte estava tudo insuportavelmente sujo de novo. Ela estava anoréxica e eu não sonhava mais com seus beijos e eu agradecia pois agora isso seria pesadelo.
   Comecei a me perguntar se ela era tão importante e vi que aquela relação estava apenas me desgastando e acabando com o resto de esperança que haviam sobrado depois de tudo que vivi. Resolvi que deveria acabar com aquilo. Me sentei ao seu lado na cama. Ela abraçava as pernas e fitava o chão. Tentei um diálogo de todas as formas. Tentei todos os assuntos e ela continuava introspectiva. Foi então que me movi para trás dela e peguei seus cabelos que se mantiveram bonitos. Senti que ainda estavam macios e o dividi em duas mexas muito grossas, enrolando-as 3 vezes em seu pescoço para se encontrar em suas costas novamente. Então puxei e ela finalmente se moveu. No entanto era tarde. Mesmo se ela pedisse desculpas eu não poderia voltar atrás. Em poucos segundos ela estava roxa e ao invés de afrouxar os fios em minha mão, eu apenas apertava mais. Juro que por um instante eu vi seus olhos terem vida outra vez e aí se acabou por completo. Eram apenas buracos preenchidos com vazio. Eu levei muitas horas para limpar a casa toda e não deixar nenhum vestígio da minha presença. Fui para minha casa e ao encontrar minha esposa me lembrei que as pessoas nem sempre nos causam problemas. Expliquei que minha viagem de negócios tinha sido um fracasso e ela me beijou e disse que era assim mesmo; uma hora a gente ganha mas na outra a gente perde.

3.5.17

Os erros se perdoam sozinhos quando a noite chega e você rola indeciso entre um lado e outro da cama, o bem e o mal, o céu e o inferno... Até que amanhece. Todos os erros se perdoam sozinhos exceto aqueles que acreditamos ser nossos; esses precisam nos roubar um pouco de paz, sono e sanidade por mais que uma noite. De pouco em pouco a loucura chega e, antes de ficar velho você não consegue mais ser jovem. O cansaço aumenta com os segundos contabilizando o tempo que resta até se tornar insuportável. Se faz presente nos seus silêncios, por trás dos seus olhos sem brilho, no seu riso sem jeito e no eterno deslize de sair de si quando alguém começa a falar. Você sempre acreditou que o mais difícil seria vencer seus inimigos até se dar conta de que eles eram você. O ego escondeu os defeitos irreparáveis de si mesmo e agora há uma névoa de orgulho impedindo que veja o desgaste tomar conta. Você podia tudo e se encontra de mãos atadas. Com sua rotina infectada o fim se aproxima lentamente. É um veneno que causa morte lenta; respire fundo e aprecie. Novamente e novamente.